Daqui algumas semanas farão 2 meses que deixei a Irlanda e já fazem três semanas que estou em São Paulo. Meus primeiros dias no Brasil foram aqui. Ah meus leitores passei momentos engraçados. Não foram poucas as vezes em que comecei algumas frases em inglês ou respondia com um “sorry?”. Não esqueço de uma stiuação em uma farmácia onde me atrapalhei toda e falava um pouco em inglês e um pouco em português. O Gustavo olhava e ria. Ele conhece muito bem essa sensação pois morou dois anos na Suíca. Hoje o inglês já faz parte da minha vida e não são poucas as vezes que quando vou responder ou pensar em algo, penso primeiro em inglês.
Minha percepção de algumas situações mudou. Não consigo mais ver mendigos, crianças pedindo esmola, homens bêbados nas ruas ou notícias de arrastões como algo normal . Lembro que na minha primeira semana estava esperando o ônibus e fiquei observando a movimentação de uma turma que vendia garrafinhas com água e me perguntei: Nossa como eles conseguem viver vendendo água? Quantas garrafas elas precisam vender para sustentar a família? Fiquei um tanto chocada. É óbvio que nosso país está na frente em inúmeros fatores, mas em relação ao poder aquisitivo, ao preço dos produtos, as condições de lazer, saúde e cultura isso sim temos muito o que evoluir.
Vários brasileiros quando vão morar na Europa enumeram apenas os pontos negativos de nosso país. Nessa hora eu sempre digo: Quando o Brasil foi “descoberto”, em 1500, a Europa já caminhava a passos largos. Não tem como comparar a evolução e nem comparar as condições. Eu acredito que o Brasil vai melhorar é só uma questão de tempo.
Também não estava mais acostumada a sentir tanto sol nos olhos e a comer tão bem por tão pouco. Não estava mais adaptada a falta das palavras mágicas: por favor, com licença, obrigado, desculpe e por aí vai. Na Europa eles podem não ser tão “calorosos” como nós mas são extremamente educados na linguagem. Esses dias um conhecido meu parou o carro num posto de combustível e disse: “Ô… qual é a direção para a cidade tal?” Eu fiquei horrorizada.
E a poluição sonora então? O som da cidade em movimento através da velocidade dos carros, os motoristas de ônibus dirigindo como loucos… nossa isso foi como uma bomba para mim. Claro que a capital Dublin é pequena, não posso compará-la a São Paulo, por exemplo. Mas mesmo cidades como Paris e Londres não tem tanto barulho.
E a segurança. Meus leitores como sinto falta dessa palavra e dessa sensação de estar sempre tão protegida e fora de perigo. Sabe eu sou de uma cidade com pouco mais de 200 mil habitantes. Nunca tive medo de sair na rua. Quando morei em SC a mesma coisa. Depois que passei a viajar para Porto Alegre, por causa do Gustavo, olhava mais para os lados cuidava a bolsa, mas nada demais. Agora em SP eu tenho receio até de andar de metrô. Esses dias cheguei ao cúmulo de sair do cinema e colocar meus documentos no bolso com medo de ser assaltada. Tá eu sei que isso vai passar, mas como sinto falta da segurança que tinha na Europa. Não tem como explicar, só você morando lá para saber do que estou falando. Nossa era tão bom caminhar despreocupada, andar de ônibus tranquila independente da hora. Isso eu sinto falta.
O engraçado disso tudo é que o melhor a fazer diante de todos esses sentimentos é guardar para si mesmo. Acredito que as pessoas ao meu redor não gostariam que a todo momento eu apontasse as minhas percepções, até porque como falei antes não em comparação. O Brasil tem muito o que aprender, mas também tem muito do que se orgulhar.
Vamos em frente batalhando com humildade e perseverança.
05/11/2010 10:03 Michelle de Porto Alegre @ID no Twitter Website